25/05/2008


De peça em peça

Abro espaço no blog para um post bastante pessoal – não que outros que tenho publicado aqui não sejam. Gostaria de anunciar a todos a conquista de mais uma conta da Dialetto: a do aposentado Herter Bernardo Scheidt, que nesta terça-feira, completa 90 anos. Brincadeiras à parte, não por acaso, seu Scheidt é meu querido avô materno – um exímio montador de quebra-cabeças de Palhoça (SC). Antigamente montava em outra coisa – cavalos, era domador.

Eu e a Adriane tivemos a idéia no ano passado, mas somente neste feriado concretizamos e demos encaminhamento. O objetivo era divulgar e homenagear o meu vô e o seu hobby, que tem há 30 anos, desde que se aposentou: montar quebra-cabeças de 500, 1000, 3000 e até 5000 peças. Na sexta sugeri a pauta para o editor de Geral do Diário Catarinense, que achou interessante e quis estampar na contra-capa deste domingo a história do meu avô.

Bem, o resto… vocês podem ler diretamente no site do Diário Catarinense o texto da ótima repórter Viviane Bevilacqua. Coloco também no leia mais deste post, já que em 30 dias sai do ar no site do jornal.

25 de maio de 2008 | N° 8079

Gente

De peça em peça

As mãos firmes, de dedos longos e gestos precisos, lembram a primeira profissão de Herter Scheidt: domador de cavalos. Chegava a montar 20 deles por dia, num tempo em que estes animais eram o principal meio de transporte na pequena cidade de Alfredo Wagner, onde nasceu.

Isso foi há mais de 70 anos. O ex-domador é, hoje, um senhor de cabelo ralo, olhos muito azuis e sorriso fácil, que na próxima terça-feira completa 90 anos de vida.

Se o corpo não é o mesmo dos tempos de juventude – há cinco anos ele usa uma cadeira de rodas, devido a problemas de artrose na perna – , a memória e a disposição são de dar inveja em muita gente jovem.

Herter deixou de domar cavalos quando casou com Lili, a pedido dela, que achava a profissão perigosa. Desistiu por amor, e nunca se arrependeu: em junho eles festejam 62 anos de um casamento feliz que, até agora, rendeu três filhos, nove netos e sete bisnetos. Passou a trabalhar com comércio e vendia cargas de cebola em São Paulo. Teve bar, lanchonete e fez de tudo um pouco. Lili também trabalhou muito, a vida inteira. Isto garantiu ao casal uma aposentadoria tranqüila.

Foi só então, após trocar os sapatos pelos chinelos, que Herter descobriu um passatempo que se tornaria muito mais do que uma brincadeira: há 30 anos, o ex-domador dedica-se a montar quebra-cabeças. E dos grandes: ele gosta daqueles que têm mil, duas mil ou 5 mil pecinhas, minúsculas. Passa boa parte de seu dia na salinha que funciona como atelier. Espalha todas as peças na mesa e, com uma paciência inacreditável, procura aquela que se encaixa perfeitamente no quadro.

E vibra quando consegue. Herter nem sabe mais quantos quebra-cabeças montou.Foram centenas – paisagens, animais, figuras humanas, reprodução de pinturas famosas. Depois de prontos, os quadros são emoldurados e vendidos. O preço varia de acordo com o tamanho da obra. Já foram tantos os jogos de montar que os familiares têm dificuldade de encontrar modelos diferentes no mercado.

Agora, no aniversário de 90 anos, com certeza o ex-domador ganhará mais alguns quebra-cabeças para a sua coleção. O único presente que ele deseja, entretanto, é saúde para continuar curtindo a vida do jeito que mais gosta: em sua casa, em Palhoça, ao lado da companheira de tantos anos e da família.

- O que mais posso querer da vida nesta idade – pergunta. E desvia a atenção para a mesa, onde mais de 500 peças de um quebra-cabeças montado pela metade o esperam.

VIVIANE BEVILACQUA

5 Comentários

  1. Lu disse:

    Ótima a matéria no DC e muito mais legal o seu Herter! Parabéns pelo emplacamento da pauta e pelo avô! :D

  2. Nilson Scheidt disse:

    Rodrigo, meu pai não poderia receber uma homenagem melhor do que esta que você conduziu, isto demonstra claramente a qualidade profissional, a sensibilidade e a oportunidade que você demonstra saber utilizar nos momentos certos.

    Nos da família Nilson Scheidt, agradecemos sensibilizados pela reportagem.

    Tio Nilson.

  3. Lúcia Scheidt Meinicke disse:

    Lindo exemplo, fiquei sensibilizada.
    Que Deus de muita saúde a ele e parabens pelos 90 anos.
    Beijos

  4. Setter disse:

    Sensacional matéria, belíssima homenagem mesmo!

  5. Jorge Campos disse:

    Força ao grande montador de quebra cabeças!

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