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set

O digital que inclui o social e o econômico

Discute-se muito aqui o potencial da internet na vida das pessoas, nos negócios, nas relações sociais. Procura-se analisar o impacto que a grande rede tem promovido no dia-a-dia dos brasileiros. A TV quer e interage com a internet, assim como o rádio, os jornais, as revistas. Todos querem estar lá.

Mas daí me deparo com um número já amplamente divulgado pela própria mídia de que, segundo o IBGE, 79% da população brasileira nunca teve acesso à internet, muitos sequer sabem ligar um computador e quiçá utilizar para coisas básicas como edição de textos, apresentações ou enviar um simples e-mail. Do restante, 21%, grande parte deve ter interagido uma ou duas vezes na rede.

Sob este ponto, vemos o quanto a internet brasileira pode crescer ainda se cada vez mais o país dispor de iniciativas que promovam a inclusão digital da população. E o incentivo ao digital não inclui só social, mas também economicamente. Afinal, quanto mais acessos a internet tiver, mais computadores serão comprados, mais negócios virtuais serão feitos, maior visibilidade terão as organizações que se relacionam pela rede, enfim, ampliam-se exponencialmente muitos aspectos da tal economia digital.

Tudo isso para destacar a importância do trabalho que entidades como o Comitê para Democratização da Informática (CDI) tem realizado no país e também em Santa Catarina. Uma entrevista com o diretor executivo da ONG no país, Rodrigo Baggio, ao Diário Catarinense deste último domingo, demonstra na prática o quanto temos a evoluir para nos incluirmos digitalmente. Confira na íntegra.

Comportamento
“Tecnologia eleva a auto-estima”
Entrevista: Rodrigo Baggio, fundador do Comitê para democratização da informática
 
 

Aos 38 anos, Rodrigo Baggio transformou um passatempo da adolescência em negócio sério. Autodidata em informática, o carioca, que aos 12 anos já brincava com as teclas do computador, é hoje diretor-executivo e fundador do Comitê para Democratização da Informática (CDI). Criada em 1995, a ONG, que recebeu em 2006 o Prêmio Sucesu 40 anos, da Associação de Usuários de Informática e Telecomunicações, promove a inclusão digital para milhares de jovens, adultos e idosos em todo o país.

O CDI já computa 642 escolas no Brasil, 198 no exterior, cerca de 1,8 mil educadores e mais de 8 mil computadores instalados. No Estado, possui 21 Escolas de Informática e Cidadania, distribuídas entre a Grande Florianópolis e Tubarão, no Sul do Estado. Líder em acessos à Internet nas escolas de ensino fundamental, públicas e particulares, o Estado está em quarto lugar no ranking da inclusão digital, segundo o Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil, desenvolvido pela Rede de Informação Tecnológica Latino-americana e Ministério da Educação.

Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pioneiro no país em inclusão digital, Baggio já conquistou o Prêmio Destaque Empreendedor Sustentável, integrou o projeto Principal Voices, da CNN Internacional e revistas Time e Fortune, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Ciências Humanas, da DePaul University, em Chicago. Em Florianópolis, participou do evento Voluntariado – Ação de Cidadania, realizado em agosto, e elogiou, em entrevista ao Diário Catarinense, o trabalho desenvolvido no Estado e a importância da comunicação no processo da inclusão social.

Diário Catarinense – Que tipo de mudança a inclusão digital pode promover na vida das pessoas?

Rodrigo Baggio – A inclusão digital é responsável por rápidos resultados de inclusão social. A tecnologia é como uma janela para um novo mundo, onde as pessoas têm a oportunidade de sonhar com uma vida melhor e ter ainda mais esperanças. As pessoas que vivem com uma renda baixa sobrevivem, sem esperanças. A tecnologia tem o poder de quebrar este ciclo porque ela melhora a auto-estima.

DC – É possível viver hoje em dia sem ter o acesso à informática?

Baggio – A tecnologia criou uma nova área de aprendizado, que é o conhecimento da informação. Quem não usa os computadores hoje em dia está margeando esta nova sociedade dinamizada pela tecnologia, vivendo um processo de apartheid digital.

DC – Qual o perfil dos internautas brasileiros?

Baggio – São pessoas com grau universitário, brancos e com idade entre 20 e 40 anos. Por etnia, os descendentes asiáticos são o grupo com maior inclusão digital. Em relação ao estado civil, os divorciados são os grandes usuários. O que não se sabe é se a informática é causa ou efeito destes divórcios.

DC – E quem são os mais excluídos?

Baggio – Quem menos têm acesso à inclusão digital são os povos indígenas.

DC – O acesso à Internet é uma realidade democrática no Brasil?

Baggio – Um estudo do IBGE, deste ano, identificou que 79% dos brasileiros nunca acessaram a Internet. Ou seja, apenas 21% já tiveram a oportunidade, pelo menos uma vez, de navegar na Web.

DC – Qual a sua avaliação sobre o potencial de inclusão digital no país?

Baggio – Temos um Comitê Gestor de Internet considerado um modelo. O Brasil poderia ter sido o país com a melhor prática de inclusão digital. Temos recursos financeiros que nunca foram liberados no Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Há cinco anos, 1% dos valores da contas telefônicas são depositados neste fundo, o que gera um montante de R$ 6 bilhões contingenciados para superávit primário.

DC – O que é preciso fazer para avançarmos?

Baggio – Não basta liberar os recursos do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Comunicações). É preciso também criar um Conselho Gestor do Fundo para planejar a utilização destes recursos e avaliar os resultados. É possível fazer uma revolução com este dinheiro.

DC – Como este dinheiro poderia ser investido?

Baggio – Primeiramente na capacitação massiva da população com baixa renda em informática e cidadania. Em segundo lugar, deveria ser criado um portal de acesso, e depois investimentos em infra-estrutura de conectividade em banda larga. Cerca de 3 mil municípios brasileiros ainda não possuem infovias.

DC – Qual a proposta pedagógica do Comitê para Democratização da Informática?

Baggio – Nosso trabalho é estimular os alunos para que eles mergulhem na realidade da sua comunidade. Só assim é possível identificar os desafios locais e usar a tecnologia de forma positiva. Ou seja, intervir e impactar na vida das pessoas que estão na sua volta. Não existe uma fórmula pronta. Cada comunidade traz os temas diferentes.

DC – Quem é beneficiado pelas escolas?

Baggio – Queremos promover a inclusão social de populações menos favorecidas, utilizando as tecnologias da informação e comunicação como um instrumento para a construção e o exercício da cidadania. Além das comunidades de baixa renda, trabalhamos com afrodescendentes, a população carcerária, os cadeirantes e pessoas com problemas de saúde mental.

DC – Você conhece o trabalho desenvolvido em Santa Catarina?

Baggio – O CDI-SC é um exemplo na nossa rede. Visitei as escolas que existem dentro dos presídios feminino e masculino de Florianópolis e fiquei impressionado com o que vi. Os presos estão ensinando os agentes penitenciários. Na sala de aula, o principal tema debatido é a liberdade. Eles já criaram até um jornal com depoimentos, distribuído para os familiares, que virou motivo de orgulho e reintegração.

Perfil do internautos
Idade média 28 anos
Rendimento domiciliar R$ 1 mil
Escolaridade 11 anos de estudo
Domicílio zonas urbanas
Fonte: Pesquisa do IBGE divulgada em 2006, com base em dados de 2005

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